O que ninguém
sabia...
After the Deluge, Rent
..Tudo começou quando Clementina, a filha do prefeito, se apaixonou por um guarda do
Cardeal edescobriu que sua vida não precisava seguir aquela rotina legendária da Vila
onde morava...
Ela então, tirou o padre Silvestre de sua cabeça e dedicou-se a sua nova vida. Sempre
ouvindo as dicas de sua conselheira Consuelo, ela conquistou o coração do guarda e a
confiança do Cardeal. Sonhava com outros lugares, outros países distantes, outras
pessoas. Consuelo lhe falou de moda, de
noites, de homens. O guarda lhe mostrou fotos de grandes cidades, de diversas viagens que
havia feito. O cardeal, no pouco tempo que permaneceu na Vila, lhe deu aulas de maquiagem
e tornou-se seu amigo. De repente aquela Vila ficou muito pequena para Clementina, que com
seus sonhos criou asas e queria voar mais alto...e mais longe.
Com a ajuda da igreja, Clementina conseguiu uma bolsa de estudos nos Estados Unidos.
Matriculou-se em uma universidade católica de Nova Yorque. E depois de uma semana de
festas na Vila para celebrar sua conquista, ela partiu. A longa viagem de ônibus
acompanhada do guarda até a cidade, mais a solitária viagem de trem até o aeroporto
deixou Clementina exausta e pensativa. Ociosa durante todo o percurso, ela imaginou como
seria sua vida se ela não tivesse nascido na Vila, e estava mais do que disposta a mudar
tudo radicalmente. Ao chegar no aeroporto de Nova Yorque, perdida e ligeiramente
assustada, Clementina de cabeça sempre erguida logo notou a diferença social. Pessoas
estranhas, roupas diferentes, multidões e barulho. Sua curiosidade não a deixava
desistir, seus olhos vagavam por todo salão a procura de um sinal que não demorou
aparecer.
CLEMENTINA-BRAZIL, era o que um
senhor muito bem arrumado tinha escrito em um papel e levantado ao vê-la passando pela
porta. Ele falava português com sotaque, mas os dois se entenderam perfeitamente.
Com ele, ela foi conhecer o Campus da sua Universidade, onde ela moraria
durante o período de seus estudos. Logo no primeiro dia, Clementina conheceu todos os
novos alunos. Ela era uma das mais extrovertidas, ia logo se apresentando de qualquer
jeito, tentando usar um pouco de inglês misturado com o sotaque francês que a Consuelo
havia lhe ensinado. Foi nesse mesmo dia que ela percebeu que seu nome, Clementina era algo
muito complicado para os americanos...Mesmo o apelido que propuseram: Tina, não a
agradou, pois a lembrava do seu pai gritando: Clementina Cretina! Desesperadamente, foi em
busca de um nome mais americanizado, desses que a gente tem que entortar a boca para
pronunciar. Arrancou seu crachá riscou o Clementina...E copiou letra por letra o crachá
da secretária que estava na frente da sala tentando
organizar o evento e havia se apresentado como Maureen Johnson.
Sua primeira semana no campus universitário foi tudo, menos legendário para
ex-Clementina. Todos a chamavam de Maureen, inclusive seus professores. A pouca bagagem
que ela havia trazido consigo, ela fez uma grande fogueira num beco da cidade. E com parte
do dinheiro que seu pai havia lhe dado, ela renovou seu guarda-roupas. Não demorou muito
para ela se incluir num grande circulo de amizades. Ela era amiga dos brasileiros, dos
orientais, dos latinos, dos negros, dos gays, dos que freqüentavam e dos que não
freqüentavam as aulas. Durante os intervalos, escrevia cartas para seus pais,
contando-lhes as novidades e algumas mentiras também. Clementina, ou melhor, Maureen não
freqüentava mais o grupo de leitura da bíblia, nem as missas.
A partir no terceiro mês, Maureen já conhecia bastante a grande cidade. Já era
convidada para as festas fora do campus e não escrevia mais com tanta freqüência para
seus pais. A cada semana que passava ela deixava de assistir cada vez mais as aulas, e
passou a dormir a maioria das noites fora do campus. Mentindo e convencendo muita gente
com todo seu charme e espontaneidade, não demorou muito para ela abandonar os estudos
universitários, e se dedicar à roda de amigos, festas, e performances nas praças e
calçadas.
Com suas performances pelas esquinas, onde ela criava mil coisas para falar, contar,
cantar e encantar, ela conseguia algum trocado para sobreviver na cidade. Comprou uma moto
usada para se locomover e chamar atenção. Assim, ela conheceu muita gente, porém, um
cara especial, Mark, tornou-se mais do que um amigo, além de produzir as performances
dela, a convidou para morar com ele em um loft no East Village. No loft moravam mais dois
amigos de Mark. O prédio era invadido, eles não pagavam aluguel nem eletricidade. Os
shows que Mark produzia, e maureen estrelava rendia pouco dinheiro, mas o suficiente para
alguma comida, alguns investimentos para futuras produções e muita festa. Mark era
um estudioso de cinema, autodidata e dedicadamente obcecado pela profissão de cineasta.
Maureen queria aparecer, era criativa e não queria perder mais nem um minuto de sua
vida.
A relação dela com Mark, foi se desmanchando a medida em que ela foi se enjoando dele,
ao mesmo tempo em que ele preferiu se dedicar a um filme onde Maureen não seria a
estrela. Ela expandiu mais um pouco seus horizontes e foi buscar no desconhecido, uma vida
que até um certo tempo atrás lhe
parecia impossível. Maureen decidiu sair do armário, e se entregou ao amor de uma
mulher, Joanne. Deixou o loft e os meninos para morar com essa advogada, que apesar de
trata-la bem, era muito ciumenta. Elas discutiam o tempo todo, isso fez com que Maureen
não cortasse totalmente, as relações com Mark. Joanne até tentou ajudá-la com a
produção de suas performances, mas Mark fazia falta, e atendendo aos chamados de Maureen
ele aparecia nos dias de performances.
..Enquanto do outro lado do mundo, e há mais de um ano sem notícias, Seu Crispim e Dna.
Hortência choravam a perda de sua única filha, dada como morta pela universidade e pela
igreja, nascia na cidade de Nova Yorque: Maureen a Rainha do camarim...
Fabi
25/07/2000
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